Um curso prático de como ver o tempo passar sem se sentir um vadio
a) Você, que se formou e surpresa!, a excelente firma pela qual você suou a camisa sintética barata de estagnário por dois longos anos decidiu mudar de idéia quanto àquela prometida contratação e pimba!, pé na sua bunda;
b) Você, que aos 17 tinha tudo muito bem planejado pela mamãe e que agora, aos 23 e prestes a se formar, se deu conta de que não ficou tão bêbado com os caras quanto queria, não pegou as “gêmeas suecas” - as duas amiguinhas loiro-brancas da faculdade, dois anos mais novas você, que saracoteiam pra lá e pra cá, exibindo muito exibidamente o bronzeado artificialmente alaranjado - e, pra piorar, você já trabalha feito a porra do vice-presidente da porra da companhia, mas ainda não passa dum assistentezinho de bosta com um salariozinho de merda. Depois de muito pensar por você mesmo pela primeira vez, você decide tirar um “período sabático” antes de rachar de vez a cabeça no fundo do duríssimo mundo corporativo, período este que acaba se tornando um tanto mais longo do que o esperado;
c) Você, que nunca tinha viajado de avião e se iludia achando que mudava de estado toda vez que ia visitar a sua tia-avó reumática em Ilha Solteira, de tão longe que era, acabou descobrindo no último ano da faculdade que ela proporciona aos bons alunos a oportunidade única de fazer um intercâmbio na gringa com os estudos pagos, e que os créditos cursados ainda são oportunamente aproveitados. Posto que é tipo a sua última chance, você se demite do emprego promissor, erroneamente acreditando que encontrará mole, mole outra coisa tão logo puser os pés em terras tupiniquins, embala aquela sua malinha marrom mequetréfica sem rodinha nem nada, passa a mão no chão do aeroporto e faz o sinal da cruz feito jogador de futebol ao bater falta perigosa e, seja o que Deus quiser, vai embora e tchau e bença!
Não importa se o seu caso se trata de a, b, c ou n.d.a. Quase seguramente você já se encaixou, se encaixa ou se encaixará em algum deles ou em outros semelhantes. Passadas as semanas iniciais de euforia pelo novo bem-bom – forçado ou não -, chega a crucial hora em que o tal marasmo assola e traz com ele o bom e velho… tédio. Começa então a martelar na sua cabeça a pergunta de um milhão de doletas: E AGORA, JOSÉ?
E agora? E agora… E AGORA, PORRA?!
Calma, calma, muita calma: esta é a primeira dica. Eu, que estou en el paro estudantil e laboral desde fevereiro deste ano, aprendi como poucos a preencher meu dia produtivamente. Em primeiro lugar, digo que a prática de atividades aleatórias é vital. “Cabeça vazia é a casa do diabo”, repete em uníssono a sábia classe C, indubitavelmente a mais trabalhadora deste país.
Pois bem, neste momento, é fundamental pensar mais feito classe C e menos feito classe B. Você que é mulher, prepare-se para trabalhar - ainda que isso signifique montar seu portifólio ou atualizar seu currículo seguindo as dicas do headhunter fodão que montou o currículo do seu pai engenheiro -, lavar, passar, cozinhar, limpar, arrumar a casa e ainda cuidar dos filhos – dos outros, é claro, porque você obviamente está na flor da idade e nem namorado próprio arranjou ainda, quanto mais filho dessa qualidade. Pense positivo: pelo menos você descola um por fora! Só não “se perder”, se é que você me entende.
Você que é homem, aproveite para tentar ser um bocado mais útil em casa. Aprenda a cozinhar! E ah, aprenda também a fazer todos aqueles serviços domésticos e outros servicinhos derivados que os machos da classe C – estes sim é que são bons, ando até pensando em trocar o meu – praticam com desenvoltura, tais quais trocar resistências de chuveiros, consertar tomadas que estão com mal-contato, pintar os cômodos e até arriscar uma textura, matar os ratos que vivem no depósito da garagem e colecionar ferramentas que você nem sabe pra que servem numa maleta de plástico cheia de divisoriazinhas.
Estas são, obviamente, dicas iniciais banhadas em ironia. São ótimas e por demais construtivas, mas servem só pra esquentar. Afinal, depois de três ou quatro semanas praticando à estafa as atividades acima sugeridas, você certamente cansará de bancar a classe C e voltará resignado à condição de classe B à qual realmente pertence. Portanto, passemos ao curso propriamente dito. Estão prontos? Que venham então as dicas práticas, úteis e relevantes de verdade!
Leia, mas leia muito. Leia o jornal inteiro todas as manhãs. Leia revistas semanais em doses homeopáticas, pois elas devem durar todos os sete dias, meticulosamente. Leia inclusive a seção de política da Revista Veja, aquela que, apesar de saber que é importante, você nunca lê, exatamente porque ela é um pé no saco. Alterne leitura teórica e leitura ficcional, que é para não viciar nem cansar. Leia quadrinhos na hora do cocô: você estende o momento e ainda o torna divertido e instrutivo. Leia Don Quijote de la Mancha en español e aproveite para treinar la lengua. E, finalmente mas não menos importante, leia Devagar, de Carl Honoré. Você vai ficar sabendo que existe uma tendência slow, hype pelo mundo afora e, de quebra, pode bancar o chique e viver seus dias feito europeu mediterrâneo, que acorda às nove, almoça às duas, toma um café às cinco e janta às nove. Isso sem contar a siesta após o almoço. Luxo, meu bem. A ordem é desacelerar.
Faça uma coisa que você nunca valorizou: mastigue. Isso mesmo, mastigue a comida. Mas mastigue mesmo, até virar papa, antes de engolir. Coma bem devagar, sentindo o gosto dos alimentos – e isso vale para o café da manhã também, momento em que você pode aproveitar para pôr em prática parte da dica anterior, aquela que se referia ao jornal. Mastigando, você diminui a velocidade com que faz as suas refeições, preenchendo o seu tempo e ainda permitindo que o sinal pópará que o cérebro manda ao estômago chegue lá antes que você tenha se empanturrado. De quebra, você perde uns quilinhos.
Arrume tudo. Arrume aquele seu quarto de ponta-cabeça, seu armário com roupas do século passado – literalmente -, suas gavetas que contêm agendinhas de telefone da 5ª série e carteiras de tactel manchadas de chiclete que grudou e velcro descabelado de tão gasto. Arrume os diversos frascos e potinhos e revistas amontoados no banheiro. Mas arrume bem-arrumado! Livre-se de todo o lixo recordatório que você veio juntando ao longo dos anos, daquelas cartas adolescentes todas de quem já gostou de você ou, na pior das hipóteses, de todos aqueles seus patéticos rascunhos de cartas de amor nunca enviadas. Jogue tudo fora. Recicle os papéis e doe os livros de vestibular. Separe as roupas que você não usa mais ou que já não servem em você pelos excessos que andou cometendo, tudo para doação. Doe também aquele carrinho de ferro perneta ou aquela barbie em igual estado de conservação de que você tanto gostava e que inocentemente planejava guardar para seus filhos, coitados. As cuecas e calcinhas velhas, pelamordedeus, queime tudo, de preferência, que é pra não correr o risco de cair em mãos erradas! Quanto à cama, assegure-se de que você chegará nela antes da moça que trabalha aí na sua casa e prepare-se para o dia em que as coisas apertarem e você tiver que ser camareiro(a) de (m)hotel. Arrume a cama bem esticadinha, bem presinha, tirando com cuidado todos os fios de cabelo soltos no travesseiro e os demais pêlos acidentais. Capriche!
Seja plugado. Use a internet a seu favor nesses tempos difíceis e seja o mais digital que você conseguir. Faça um blog e atualize-o diariamente. Lendo tanto, você terá mil assuntos sobre os quais falar, prometo. Pegue a sua câmera digital portátil e brinque de fotógrafo-amador-eu-sou-foda, clicando objetos aleatórios cuja função você desconhece por completo. Espalhe que todas as fotos são conceituais. Faça também auto-fotos bem posers, bem produzidas e em séries, de preferência. Fazem o maior sucesso! Não esqueça de tratar tudo no Photoshop antes de publicar: arrume os níveis (ou levels, como queira), embora você não saiba o que isso signifique, aumente um pouco o brilho, estoure o contraste e sature o máximo possível, no limite do totalmente ridículo. Pratique o uso de ferramentas de seleção e recorte a pele da sua cara, aplicando nela um filtro Ruído – Mediana num nível que permita que ela tenha tanta textura quanto a cara duma boneca de porcelana. Depois de tudo isso, crie um flickr e libere três fotos diariamente, que é pra fazer suspense sobre a série, instigar os visitantes e permitir que eles comentem em todas elas sem se cansar. Crie também um fotolog, no qual você vai postar apenas uma foto por dia – afinal, fotologgers são seres ocupadíssimos e têm muitos fotologs alheios diários a visitar e a comentar, ou seja, eles não teriam muito tempo para conferir as suas duas fotos diárias, que dirá comentá-las. Visite tudo quanto é tipo de manifestação pessoal online e faça comentários aparentemente inteligentes em todas elas, bajulando-as. Lembre-se: o objetivo aqui é ser popular! Aproveite para ficar por dentro do mundinho e descobrir o que é um podcast, uma alimentação por rss, o tal do Java. Aventure-se em html. Atualize sempre o seu perfil no orkut, trocando as fotos do álbum e mandando scraps com beijos e muitas saudades para todos os seus amigos. Fuce a vida alheia e descubra porque aquela vaca da ex do seu namorado anda visitando o seu perfil e, que piranha!, o dele também. Não deixe de convidar aquele cara, aquele do aparelho-cabresto que você conheceu na auto-escola (como era mesmo o nome dele?), para ser seu “amigo”. Não, faça melhor: tenha 1000 amigos no orkut! Mas só vale gente que você conhece. Esse sim é um objetivo e tanto: além do tempo gasto na procura dos já conhecidos, você ainda aproveita para conhecer gente nova.
Pratique o sono e o sonho. Primeiro, assegure-se de que você está dormindo as saudáveis oito horas diárias. Adicione então uma horinha de quebra, afinal, você não tem muito o que fazer mesmo. A partir disso, programe o seu despertador pra tocar uma hora antes daquelas nove. Aí, faça questão de que os só-mais-cinco-minutinhos virem hora cheia, voltando a dormir. É quase certeza que, durante esse período, você vai sonhar! Portanto, aproveite e tente educar os seus sonhos a serem os mais coloridos, cheirosos e mirabolantes do seu meio social. Pratique acordar, ir fazer xixi, deitar de novo e voltar àquele sonho interrompido pela bexiga. Com o tempo, você tomará as rédeas do seu inconsciente e produzirá sonhos incríveis, que darão assuntos interessantíssimos e serão motivo para se gabar entre seus amigos insones.
Finalmente, a dica de ouro: leia as instruções. Parece simples, não? E é, mas você nunca faz, aposto. Por exemplo, qual foi a última vez em que você leu e seguiu as instruções do seu shampoo? Hein? Pois agora você tem tempo para isso, portanto, use-o! Aplique o produto em movimentos circulares, massageando o couro cabeludo suavemente. Enxagüe. Repita a operação para melhores resultados. Não deixe de experimentar o novo hidratante corporal da sua mãe e sentir na pele a combinação de hidratação prolongada e rápida absorção, o que é uma vantagem se você é menino, levando em conta a quantidade de pêlos. Para o hidratante facial, aplique uma pequena quantidade nas mãos e espalhe no rosto até que o produto seja absorvido completamente. A prática evita que a pele fique oleosa, bobo! Na área tecnológica, procure todos os manuais de aparelhos que você nunca leu e faça-o. Certamente você vai tirar muito mais proveito do aparelho de dvd de “última geração” que seu pai comprou – seja lá o que isso signifique-, da sua câmera fotográfica digital com 68 funções adicionais e até do seu relativamente novo celular que, por ser Nokia como o antigo, tem a mesma interface, mas com algumas atualizações imprescindíveis. E, para aquela receita de brownie que você agora faz toda semana e que, portanto, já está calvo de corpo inteiro de saber, releia as instruções. É sério. Experimente misturar todos os ingredientes na ordem da receita, mesmo sabendo que não faz diferença alguma, e bater a massa na mão durante os 40 minutos indicados e não apenas durante os seus usuais 20. Repare como a massa ficará muito mais macia e úmida e o bolo deixará de parecer uma maquete dos mares de morros, matéria de estudos sociais que você aprendeu na 4ª série com a tia Marilene.
É isso. É claro que você pode e deve inventar suas próprias atividades aleatórias para preencher o dia, conforme suas aficções e limitações. Esportes são uma boa pedida. Yoga e artes marciais também: são muito boas para adquirir disciplina, auto-conhecimento, alongamento, força e aprender a respirar corretamente, o que faz toda a diferença, embora você ainda não saiba. Videogame e televisão são ótimos, mas certifique-se de que você tem um objetivo claro e definido, como matar o Bowser (ou o Robotnik, urgh!) ou acompanhar Lost, meta esta que te obrigará a ir à locadora buscar os dvds das primeiras temporadas. Mate dois coelhos numa cajadada só e traga de lá uns filmes também, já que eles ocupam preciosas duas das suas 24 horas diárias e ainda proporcionam cultura de lambuja.
Depois de tudo isso, desejo-lhe muita sorte, do fundo do coração. Acredite-me, eu compartilho da sua agonia, pois sei bem como é árdua a tarefa de fazer passar o tempo sem sentir-se um inútil. Muita força aí e mantenha a fé! Dias melhores virão.