terça-feira, 21 de agosto de 2007

Os japoneses sempre me intrigaram

Quando eu tinha uns poucos anos, alguém me contou uma história que ilustra pra mim, até hoje, o que é o Japão. Lá, segundo a lenda, tinha tanta gente, mas tanta gente que quando um japonês esbarrava noutro no meio da rua, o esbarrão gerava uma reação em cadeia que, ao final do processo, fazia algum japonês cair no mar. E eu ficava imaginando toda a progressão do acidente:

Executivo apressado andando nas calçadas do centro financeiro de Tokyo e falando no celular que esbarrava...

num vendedor ambulante de temaki, que derrubava o cone de peixe cru no colo duma...

colegial de franjinha, camisa branca saia azul marinho e meia ⅝ que caía de costas e trombava...

num fazedor de espadas Samurai que enfiava a lâmina recém forjada nos fundilhos de uma...

gordona que jogava Sudoku no banco da praça num domingo de sol enquanto assistia um grupo de...

jovens fazendo Tai Chi Chuan, blábláblá...

até que um velinho de 107 anos, a 500 km de Tokyo, no interior de Nagasaki, gritava BANSAAAAII!!!!!! ao ser empurrado em direção à morte enquanto plantava um bonsai no alto de um penhasco na costa japonesa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Ê trem mai bão ess, fio!

E então eu fui de viagem, aproveitando o bonde familiar. Empacotamos casacos de frio, roupas de guerra, duas bolsas térmicas com suprimentos a serem consumidos durante o percurso e até a vó. É, a vó foi também, espremida no banco de trás entre eu e meu irmão adolescente. Eu adoro quando a vó vai nas viagens, porque ela é uma ótima companhia para fartos cafés-da-manhã de hotel, coisa de gente que acha esta a refeição mais sensacional do dia.

Sete horas de viagem depois, Tiradentes. Megalópole: cinco mil habitantes! Curiosamente, ela se tornou, com o correr dos anos, uma das cidadezinhas mais visitadas de Minas, graças à Rede Globo e à fofura inerente (não descartemos o mérito próprio). Casinhas antigas todas iguais, de paredes brancas e batentes coloridinhos, muitos fuscas e brasílias, igrejinhas barrocas com muito ouro nos altares e uma praça principal. Só senti falta do coreto…

O guia de papel do hotel dizia para calçar sapatos maleáveis durante as andanças pelas ruas, mas eu tive que estar discordando. Eu, acostumadíssima com meus maleabilíssimos all star, sofri nas pedras nada bem-arranjadas das ruazinhas. O negócio era tão irregular que a vó tinha que passear no braço o tempo inteiro. É porque ela já é velhinha né, e há pouco tempo caiu de joelhos e quebrou a patela (vulgo rótula). Desde então, a atenção da nossa parte para com ela é redobrada. Sacumé, artrite, artrose & osteoporose, os ossos já não colam como antigamente. Envelhecer é padecer no purgatório.

O guia também dizia pra gente não perder a maria-fumaça. A gente então, que é turista e gosta de tradicionalidades locais, foi de carro até São João D’El Rey, ultramegalópole local, atraente por suas imperdíveis oportunidades de carreira e pelo Museu da FEB (que eu achei, por dedução, que deveria significar Força Exércita Brasileira, tipo Força Aérea Brasileira, e por isso quase levei um “eeer” do meu pai, daqueles que a gente leva na 6ª série).

A maria-fumaça partia de São João às 15h, com destino a Tiradentes. Combinamos que minha mãe voltaria de carro com a minha avó e iríamos no trem eu, meu pai e meu irmão adolescente. Pois fomos. Passagem comprada, trem apitando, passamos obviamente atrasados pela catraca e fomos procurar nossos confortáveis assentos de 1ª classe, esperando que houvesse serviço de bordo com balinhas de sabores absurdos e caramelinhos explosivos, como no trem do Harry Potter (ok, admito que a esperança aqui era só minha, mesmo porque nenhum outro membro familiar leu Harry Potter além de mim).

O caso foi que, como eu já disse, entramos atrasados. Todos os confortáveis assentos acolchoados de 1ª classe já estavam tomados. Restaram os deliciosos assentos de madeira carcomida, porém pintadinha, dos vagões periféricos. Que seja! Nada miaria nosso passeio, assim que escolhemos assentos na janelinha. Empolgado, meu pai ensinou pra gente a mágica dos bancos reversíveis: os encostos são móveis, sabiam? Portanto, configuramos nossos assentos como se estivéssemos numa limusine, de frente uns pros outros. Piuííí!

(Sempre achei essa onomatopéia estúpida. Acho que o apito do trem a vapor faz tchu-tchuuu, e não piuííí. Mas enfim, foi só pra ilustrar.)

O trem estava cheio de famílias: pais barrigudos em camisas azulzinhas de cobradores de ônibus e suas pizzas de suor estrategicamente posicionadas, mães descabeladas em roupas de ginástica que causam o efeito “salsicha amarrada”, crianças semi-obesas e rosadas em camisetinhas de golas esgarçadas e sujas de sorvete. As crianças estavam excitadíssimas, gritando e pulando nos bancos, mas acho que ninguém ganhava da gente. Estávamos os três com o corpo quase todo para fora, observando o maquinista lubrificar alguma coisa que deveria ser o pistão, olhando as pedrinhas que circundam o trilho e as casinhas dos arredores. Eu estava achando tudo lindo!

O trem começou a andar e o povo só faltou bater palma. Eu mesma, que nunca tinha andado em maria-fumaça antes, estive a ponto de puxar uma salva. Logo saímos da cidade, não sem antes obedecer à placa de “buzine” e apitar duas vezes diante de cada cruzamento de carros.

No caminho, passamos por vilas bem pobres, pés de morros altos, vales verdes com direito a riozinho e tudo, árvores secas e um monte de gente. Cada grupo que via o trem acenava. O cidadão escolhia um sujeito para fixar o olhar e dava tchau diretamente para ele. Fui escolhida por algumas crianças, e escolhi algumas outras… Isso meio que faz a gente se sentir em casa, como se a cidade fosse um pouco nossa também. Não sei explicar direito, só sei que é gostoso.

Um menino que andava numa bicicleta velha e enferrujada, daquelas que tem um semaforozinho no pára-lamas traseiro, apostou corrida com o trem até onde agüentou. Meu pai achou graça e disse alguma coisa para ele, que riu de volta, desdentado. Ri também. Achei a coisa mais bonita e triste ao mesmo tempo. Fiquei triste por todos os meninos desdentados em bicicletas caindo aos pedaços… Quis que eles tivessem todos os dentes e bicicletas que não pusessem a vida deles em perigo, sabe?

Mais pra frente, um cara do alto dum morro aproveitava o vento e empinava uma pipa profissional, vermelha. Ela subia e descia, ondulava demais, e o vermelho da pipa no azul do céu salpicado do branco das nuvens sobre o verde do mato era muito bonito. Mostrei a pipa para o meu irmão, só para ouvir o “Úia!” engraçado que ele faz, que todos nós fazemos, quando vemos uma coisa intrigante. Todos nós da família, digo. É tipo um costume.

O passeio durou quase uma hora cheia, e então chegamos na estação de Tiradentes. Estávamos curiosíssimos sobre como o trem viraria nos trilhos, já que a maria-fumaça só fazia aquele trajeto e havia de virar de qualquer jeito. Aprendi algumas coisas ali: um trem pode dar ré, há um trilho giratório móvel para virar a maria-fumaça e o que queima, hoje em dia, é óleo, e não madeira, e por isso fede bastante. Muitos minutos de espera pela gentarada e algumas fotos depois, nos despedimos do trenzinho e fomos caminhando de volta para a pousada, não sem antes passar no Chico Doceiro e comprar alguns canudinhos de massa de pastel frita recheados com doce de leite. Paraíso.

O resumo da ópera? Não há. Essa história não tem moral nem conclusão. Ela foi feita apenas para ilustrar, ainda que restritamente, o legal que foram esses dias em Tiradentes. Isso porque nem entrei no mérito da comida mineira. Na boa? Minas, e o povo de lá, é uma das coisas mais legais que o Brasil tem. É claro que também existem as praias do sul e do nordeste, e também a Bahia e o Pantanal, e também a Amazônia que não conheço ainda mas hei de conhecer em breve, e também Bonito, e também a Chapada Diamantina, mas tudo isso são outras histórias.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Be water, my friend

Quase todo mundo tem aquela fase radical com música. Digo quase porque tem gente que não gosta de música, mas, se você gosta, já teve sua fase. O cara é metaleiro, e, se toca algo mais leve que Cradle of Filth, já parte para a agressão. Ou então o cidadão está em sua fase eletrônica, raver, clubber e, quando fareja o menor resquício humano – seja um fio de cabelo do operário durante a prensagem do cd seja um germe do espirro do designer durante a criação do encarte – lá vem aquela cara de diarréia.

Eu também já tive minha fase. Lembro bem de ter ido à Bahia com uns 16 anos. Sol, praia e muito axé, num palco montado na praia na frente do hotel. Duas loiras rebolavam, um negão remexia e outros cinco faziam o som, diariamente, nine to five. Eu, plantado embaixo do sol, tive como melhor amigo nessa viagem meu discman, que rodava sem parar o S&M, que o Metallica havia lançado fazia uns meses.

Uns dois anos depois, voltei à Bahia para o glorioso rito de passagem do jovem paulistano rumo ao mundo dos homens: a semana do colégio em Porto Seguro. Nesta época, ainda ouvia muito rock pesado, mas não só compareci a todos os eventos musicais da semana (desconsidere o fato de que música não era, não é, nem nunca será, o principal atrativo numa viagem deste tipo) como me lembro de ter me divertido muito nos shows da Ivete Sangalo, Harmonia do Samba e outros do gênero. O que aconteceu naquela semana foi algo muito simples: eu me tornei água.

Nascido num hospital chinês em São Franscico, Califórnia, Bruce Lee talvez tenha sido o maior lutador da história. Seus golpes e gritos conquistaram Oriente e Ocidente em iguais proporções. No auge de sua carreira, o velho rival de Chuck norris concedeu uma entrevista (que depois virou até propaganda da BMW), na qual deu dicas pseudo-filosóficas a seus seguidores:


Empty your mind, be formless. Shapeless, like water. If you put water into a bottle, it becomes the bottle. You put it in a teapot it becomes the teapot. Now, water can flow or it can crash. Be water my friend.


Mesmo não sendo fã das trilhas sonoras de seus filmes, muito menos de música popular chinesa (até mesmo pelo fato de não saber identificar uma), reconheço neste particular ensinamento do mestre uma valiosa dica aos extremistas musicais. Já tendo feito parte do Taliban sonoro, faço um balanço não tão positivo de minha militância no grupo do “tira essa merda!”.

Claro que ainda luto contra alguns fenômenos musicais que só a rica miscigenação cultural brasileira é capaz de formar, mas percebo que a minha luta agora é mais “agora não é o clima” do que “prefiro ter uma agulha atravessada no meu tímpano durante toda a eternidade”.

Não que você deva vibrar com tudo o que o mercado vomita em cima de você, mas, para manter sua própria sanidade, tente educar o ouvido a pelo menos aceitar outros sons. Se você é roqueiro, comece com o Blues, virá então o folk e, quando você perceber, estará num churrasco ouvindo Leandro & Leonardo sem tentar o suicídio com o espeto de linguiça. Se a sua é o reggae, experimente o dub. Quando você perceber, já estará dançandinho um eletrônico na balada. Fazendo isso, você fará a música trabalhar para seus nervos, e nunca contra eles.

Lembre-se, a música é sua amiga, inventaram-na para te divertir. Seja água, meu amigo. Ou morra com um discman na orelha.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Preenchendo o dia produtivamente

Um curso prático de como ver o tempo passar sem se sentir um vadio


a) Você, que se formou e surpresa!, a excelente firma pela qual você suou a camisa sintética barata de estagnário por dois longos anos decidiu mudar de idéia quanto àquela prometida contratação e pimba!, pé na sua bunda;

b) Você, que aos 17 tinha tudo muito bem planejado pela mamãe e que agora, aos 23 e prestes a se formar, se deu conta de que não ficou tão bêbado com os caras quanto queria, não pegou as “gêmeas suecas” - as duas amiguinhas loiro-brancas da faculdade, dois anos mais novas você, que saracoteiam pra lá e pra cá, exibindo muito exibidamente o bronzeado artificialmente alaranjado - e, pra piorar, você já trabalha feito a porra do vice-presidente da porra da companhia, mas ainda não passa dum assistentezinho de bosta com um salariozinho de merda. Depois de muito pensar por você mesmo pela primeira vez, você decide tirar um “período sabático” antes de rachar de vez a cabeça no fundo do duríssimo mundo corporativo, período este que acaba se tornando um tanto mais longo do que o esperado;

c) Você, que nunca tinha viajado de avião e se iludia achando que mudava de estado toda vez que ia visitar a sua tia-avó reumática em Ilha Solteira, de tão longe que era, acabou descobrindo no último ano da faculdade que ela proporciona aos bons alunos a oportunidade única de fazer um intercâmbio na gringa com os estudos pagos, e que os créditos cursados ainda são oportunamente aproveitados. Posto que é tipo a sua última chance, você se demite do emprego promissor, erroneamente acreditando que encontrará mole, mole outra coisa tão logo puser os pés em terras tupiniquins, embala aquela sua malinha marrom mequetréfica sem rodinha nem nada, passa a mão no chão do aeroporto e faz o sinal da cruz feito jogador de futebol ao bater falta perigosa e, seja o que Deus quiser, vai embora e tchau e bença!

Não importa se o seu caso se trata de a, b, c ou n.d.a. Quase seguramente você já se encaixou, se encaixa ou se encaixará em algum deles ou em outros semelhantes. Passadas as semanas iniciais de euforia pelo novo bem-bom – forçado ou não -, chega a crucial hora em que o tal marasmo assola e traz com ele o bom e velho… tédio. Começa então a martelar na sua cabeça a pergunta de um milhão de doletas: E AGORA, JOSÉ?

E agora? E agora… E AGORA, PORRA?!

Calma, calma, muita calma: esta é a primeira dica. Eu, que estou en el paro estudantil e laboral desde fevereiro deste ano, aprendi como poucos a preencher meu dia produtivamente. Em primeiro lugar, digo que a prática de atividades aleatórias é vital. “Cabeça vazia é a casa do diabo”, repete em uníssono a sábia classe C, indubitavelmente a mais trabalhadora deste país.

Pois bem, neste momento, é fundamental pensar mais feito classe C e menos feito classe B. Você que é mulher, prepare-se para trabalhar - ainda que isso signifique montar seu portifólio ou atualizar seu currículo seguindo as dicas do headhunter fodão que montou o currículo do seu pai engenheiro -, lavar, passar, cozinhar, limpar, arrumar a casa e ainda cuidar dos filhos – dos outros, é claro, porque você obviamente está na flor da idade e nem namorado próprio arranjou ainda, quanto mais filho dessa qualidade. Pense positivo: pelo menos você descola um por fora! Só não “se perder”, se é que você me entende.

Você que é homem, aproveite para tentar ser um bocado mais útil em casa. Aprenda a cozinhar! E ah, aprenda também a fazer todos aqueles serviços domésticos e outros servicinhos derivados que os machos da classe C – estes sim é que são bons, ando até pensando em trocar o meu – praticam com desenvoltura, tais quais trocar resistências de chuveiros, consertar tomadas que estão com mal-contato, pintar os cômodos e até arriscar uma textura, matar os ratos que vivem no depósito da garagem e colecionar ferramentas que você nem sabe pra que servem numa maleta de plástico cheia de divisoriazinhas.

Estas são, obviamente, dicas iniciais banhadas em ironia. São ótimas e por demais construtivas, mas servem só pra esquentar. Afinal, depois de três ou quatro semanas praticando à estafa as atividades acima sugeridas, você certamente cansará de bancar a classe C e voltará resignado à condição de classe B à qual realmente pertence. Portanto, passemos ao curso propriamente dito. Estão prontos? Que venham então as dicas práticas, úteis e relevantes de verdade!

Leia, mas leia muito. Leia o jornal inteiro todas as manhãs. Leia revistas semanais em doses homeopáticas, pois elas devem durar todos os sete dias, meticulosamente. Leia inclusive a seção de política da Revista Veja, aquela que, apesar de saber que é importante, você nunca lê, exatamente porque ela é um pé no saco. Alterne leitura teórica e leitura ficcional, que é para não viciar nem cansar. Leia quadrinhos na hora do cocô: você estende o momento e ainda o torna divertido e instrutivo. Leia Don Quijote de la Mancha en español e aproveite para treinar la lengua. E, finalmente mas não menos importante, leia Devagar, de Carl Honoré. Você vai ficar sabendo que existe uma tendência slow, hype pelo mundo afora e, de quebra, pode bancar o chique e viver seus dias feito europeu mediterrâneo, que acorda às nove, almoça às duas, toma um café às cinco e janta às nove. Isso sem contar a siesta após o almoço. Luxo, meu bem. A ordem é desacelerar.

Faça uma coisa que você nunca valorizou: mastigue. Isso mesmo, mastigue a comida. Mas mastigue mesmo, até virar papa, antes de engolir. Coma bem devagar, sentindo o gosto dos alimentos – e isso vale para o café da manhã também, momento em que você pode aproveitar para pôr em prática parte da dica anterior, aquela que se referia ao jornal. Mastigando, você diminui a velocidade com que faz as suas refeições, preenchendo o seu tempo e ainda permitindo que o sinal pópará que o cérebro manda ao estômago chegue lá antes que você tenha se empanturrado. De quebra, você perde uns quilinhos.

Arrume tudo. Arrume aquele seu quarto de ponta-cabeça, seu armário com roupas do século passado – literalmente -, suas gavetas que contêm agendinhas de telefone da 5ª série e carteiras de tactel manchadas de chiclete que grudou e velcro descabelado de tão gasto. Arrume os diversos frascos e potinhos e revistas amontoados no banheiro. Mas arrume bem-arrumado! Livre-se de todo o lixo recordatório que você veio juntando ao longo dos anos, daquelas cartas adolescentes todas de quem já gostou de você ou, na pior das hipóteses, de todos aqueles seus patéticos rascunhos de cartas de amor nunca enviadas. Jogue tudo fora. Recicle os papéis e doe os livros de vestibular. Separe as roupas que você não usa mais ou que já não servem em você pelos excessos que andou cometendo, tudo para doação. Doe também aquele carrinho de ferro perneta ou aquela barbie em igual estado de conservação de que você tanto gostava e que inocentemente planejava guardar para seus filhos, coitados. As cuecas e calcinhas velhas, pelamordedeus, queime tudo, de preferência, que é pra não correr o risco de cair em mãos erradas! Quanto à cama, assegure-se de que você chegará nela antes da moça que trabalha aí na sua casa e prepare-se para o dia em que as coisas apertarem e você tiver que ser camareiro(a) de (m)hotel. Arrume a cama bem esticadinha, bem presinha, tirando com cuidado todos os fios de cabelo soltos no travesseiro e os demais pêlos acidentais. Capriche!

Seja plugado. Use a internet a seu favor nesses tempos difíceis e seja o mais digital que você conseguir. Faça um blog e atualize-o diariamente. Lendo tanto, você terá mil assuntos sobre os quais falar, prometo. Pegue a sua câmera digital portátil e brinque de fotógrafo-amador-eu-sou-foda, clicando objetos aleatórios cuja função você desconhece por completo. Espalhe que todas as fotos são conceituais. Faça também auto-fotos bem posers, bem produzidas e em séries, de preferência. Fazem o maior sucesso! Não esqueça de tratar tudo no Photoshop antes de publicar: arrume os níveis (ou levels, como queira), embora você não saiba o que isso signifique, aumente um pouco o brilho, estoure o contraste e sature o máximo possível, no limite do totalmente ridículo. Pratique o uso de ferramentas de seleção e recorte a pele da sua cara, aplicando nela um filtro Ruído – Mediana num nível que permita que ela tenha tanta textura quanto a cara duma boneca de porcelana. Depois de tudo isso, crie um flickr e libere três fotos diariamente, que é pra fazer suspense sobre a série, instigar os visitantes e permitir que eles comentem em todas elas sem se cansar. Crie também um fotolog, no qual você vai postar apenas uma foto por dia – afinal, fotologgers são seres ocupadíssimos e têm muitos fotologs alheios diários a visitar e a comentar, ou seja, eles não teriam muito tempo para conferir as suas duas fotos diárias, que dirá comentá-las. Visite tudo quanto é tipo de manifestação pessoal online e faça comentários aparentemente inteligentes em todas elas, bajulando-as. Lembre-se: o objetivo aqui é ser popular! Aproveite para ficar por dentro do mundinho e descobrir o que é um podcast, uma alimentação por rss, o tal do Java. Aventure-se em html. Atualize sempre o seu perfil no orkut, trocando as fotos do álbum e mandando scraps com beijos e muitas saudades para todos os seus amigos. Fuce a vida alheia e descubra porque aquela vaca da ex do seu namorado anda visitando o seu perfil e, que piranha!, o dele também. Não deixe de convidar aquele cara, aquele do aparelho-cabresto que você conheceu na auto-escola (como era mesmo o nome dele?), para ser seu “amigo”. Não, faça melhor: tenha 1000 amigos no orkut! Mas só vale gente que você conhece. Esse sim é um objetivo e tanto: além do tempo gasto na procura dos já conhecidos, você ainda aproveita para conhecer gente nova.

Pratique o sono e o sonho. Primeiro, assegure-se de que você está dormindo as saudáveis oito horas diárias. Adicione então uma horinha de quebra, afinal, você não tem muito o que fazer mesmo. A partir disso, programe o seu despertador pra tocar uma hora antes daquelas nove. Aí, faça questão de que os só-mais-cinco-minutinhos virem hora cheia, voltando a dormir. É quase certeza que, durante esse período, você vai sonhar! Portanto, aproveite e tente educar os seus sonhos a serem os mais coloridos, cheirosos e mirabolantes do seu meio social. Pratique acordar, ir fazer xixi, deitar de novo e voltar àquele sonho interrompido pela bexiga. Com o tempo, você tomará as rédeas do seu inconsciente e produzirá sonhos incríveis, que darão assuntos interessantíssimos e serão motivo para se gabar entre seus amigos insones.

Finalmente, a dica de ouro: leia as instruções. Parece simples, não? E é, mas você nunca faz, aposto. Por exemplo, qual foi a última vez em que você leu e seguiu as instruções do seu shampoo? Hein? Pois agora você tem tempo para isso, portanto, use-o! Aplique o produto em movimentos circulares, massageando o couro cabeludo suavemente. Enxagüe. Repita a operação para melhores resultados. Não deixe de experimentar o novo hidratante corporal da sua mãe e sentir na pele a combinação de hidratação prolongada e rápida absorção, o que é uma vantagem se você é menino, levando em conta a quantidade de pêlos. Para o hidratante facial, aplique uma pequena quantidade nas mãos e espalhe no rosto até que o produto seja absorvido completamente. A prática evita que a pele fique oleosa, bobo! Na área tecnológica, procure todos os manuais de aparelhos que você nunca leu e faça-o. Certamente você vai tirar muito mais proveito do aparelho de dvd de “última geração” que seu pai comprou – seja lá o que isso signifique-, da sua câmera fotográfica digital com 68 funções adicionais e até do seu relativamente novo celular que, por ser Nokia como o antigo, tem a mesma interface, mas com algumas atualizações imprescindíveis. E, para aquela receita de brownie que você agora faz toda semana e que, portanto, já está calvo de corpo inteiro de saber, releia as instruções. É sério. Experimente misturar todos os ingredientes na ordem da receita, mesmo sabendo que não faz diferença alguma, e bater a massa na mão durante os 40 minutos indicados e não apenas durante os seus usuais 20. Repare como a massa ficará muito mais macia e úmida e o bolo deixará de parecer uma maquete dos mares de morros, matéria de estudos sociais que você aprendeu na 4ª série com a tia Marilene.

É isso. É claro que você pode e deve inventar suas próprias atividades aleatórias para preencher o dia, conforme suas aficções e limitações. Esportes são uma boa pedida. Yoga e artes marciais também: são muito boas para adquirir disciplina, auto-conhecimento, alongamento, força e aprender a respirar corretamente, o que faz toda a diferença, embora você ainda não saiba. Videogame e televisão são ótimos, mas certifique-se de que você tem um objetivo claro e definido, como matar o Bowser (ou o Robotnik, urgh!) ou acompanhar Lost, meta esta que te obrigará a ir à locadora buscar os dvds das primeiras temporadas. Mate dois coelhos numa cajadada só e traga de lá uns filmes também, já que eles ocupam preciosas duas das suas 24 horas diárias e ainda proporcionam cultura de lambuja.

Depois de tudo isso, desejo-lhe muita sorte, do fundo do coração. Acredite-me, eu compartilho da sua agonia, pois sei bem como é árdua a tarefa de fazer passar o tempo sem sentir-se um inútil. Muita força aí e mantenha a fé! Dias melhores virão.